O Outono - Rubem Alves!

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Presentation Description

Rubem Azevedo Alves (Boa Esperança, 15 de setembro de 1933 — Campinas, 19 de julho de 2014) foi um psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, é autor de livros religiosos, educacionais , existenciais e infantis. É considerado um dos maiores pedagogos brasileiros de todos os tempos, um dos fundadores da Teologia da Libertação e intelectual polivalente nos debates sociais no Brasil. Foi professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Aqui uma de sua brilhante obra:

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Presentation Transcript

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O outono Rubem Alves Imagens : Autumn drawing com autoria desconhecida

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Foi-se, finalmente, o Verão, não sem antes fazer algumas grosserias e malcriações: trovejou, relampejou, choveu, inundou. Não queria ir embora. Compreendo. Queria ficar para ver e namorar o Outono, que é muito mais bonito que ele.

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Verão, quarentão: Recusava-se a aceitar os sinais da passagem do tempo. Não queria dizer adeus. Gostaria de ficar. A vida é tão boa! Mas o tempo é implacável.

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O Sol lhe disse que a hora do seu adeus havia chegado. Foi-se inclinando no céu, suas viagens cada vez mais curtas, as noites mais longas, o crepúsculo chegando mais cedo, as manhãs chegando mais tarde. O vento antes convidava a que se tirasse a camisa. Agora ele causa arrepios e chama os agasalhos das gavetas onde dormiam.

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No Verão o excesso de luz ofusca as cores. No outono a luz fica mais mansa e as cores desabrocham como flores. O Verão é inquieto. Tudo nele convida a sair e a agir O Outono é tranquilo, introspectivo, convida ao recolhimento e à meditação. É um convite ao pensamento.

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Gosto especialmente das suas tardes. O Verão é estação do meio-dia. O Outono vive mais ao sol que se põe. E como são belos os dois, Outono e tardes. Há uma pitada de tristeza misturada no ar. “O que é bonito enche os olhos de lágrimas”, dizia a Adélia. Os dois se parecem porque os dois estão cheias de adeus.

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Na cidade onde eu vivi, no interior de Minas, ao crepúsculo se tocava a Ave Maria , e era como se toda a natureza parasse e rezasse. Eu gostava de ficar olhando para as árvores: havia uma imobilidade absoluta no ar. Nem um único tremor perturbava a tranquilidade pensativa das folhas.

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E as nuvens ao poente se coloriam de verde claro, passando pelos amarelos, laranjas e vermelhos, até o roxo, que se preparava para desaparecer na escuridão. Tudo belo. Tudo triste.

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E pensamos pensamentos diferentes daqueles de durante o dia. Para Wordsworth, “as nuvens que se ajuntam ao redor do sol que se põe ganham seu colorido triste de olhos que têm atentamente obsevado a mortalidade dos homens”.

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O crepúsculo e o Outono nos fazem retornar à nossa verdade. Dizem o que somos. Metáforas de nós mesmos, eles nos fazem lembrar que somos seres crepusculares, outonais.

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Também somos belos e tristes... Como o Verão quarentão, também nós não queremos partir...

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Quem quer que pare para ouvir as vozes do Outono e da tarde perceberá que, de dentro da sua beleza, nos falam a nossa vida e a nossa morte.

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Nada mórbido. Só podem viver bem aqueles que aprendem a sabedoria que a morte ensina.

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É preciso contemplar o crepúsculo no horizonte para se sentir a beleza incomparável do momento. Cada momento é único. Não há tempo para brincadeiras.

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Carpie diem : colha o dia, como algo que nunca mais se repetirá, como quem colhe um crepúsculo, “antes que se quebre a corrente de prata, e se despedace a taça de ouro...” Beba o momento até as últimas gotas.

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É preciso olhar para o Abismo face a face, pra se compreender que o Outono já chegou e que a tarde já começou. Cada momento é crepuscular. Cada momento é outonal. Sua beleza anuncia seu iminente mergulho no horizonte.

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Quando o sol está a pino estas ideias não nos perturbam. Tudo parece estar bem. Há muito tempo ainda. As rotinas do trabalho ocultam a nossa verdade.

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Mas elas não podem impedir nem que a tarde chegue, com cores de adeus, nem que o Outono chegue, anunciando a proximidade do inverno.

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E eles nos forçam a ter pensamentos diferentes, pensamentos de solidão. São mestres silenciosos. Se prestarmos atenção e ouvirmos o que nos dizem, ficaremos sábios.

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Porque sabedoria é isto: contemplar o Abismo, sem ser destruído por ele. Rubem Alves Formatação: Christina Meirelles Neves

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