TUTORIAL

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Slide 1:

Para ler Livro (ou caixa de fundo vazado)

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O objetivo principal deste projeto consiste em acolher uma experiência diferente de leitura e, consequentemente, de escrita. Nada contra o papel ou o livro impresso, nenhum tipo de expectativa quanto a um melhor e o seu pior. Apenas o desejo de experimentar as possibilidades que se oferecem a quem gosta de ler e escrever, agora utilizando-se intensivamente os recursos que apenas o nosso tempo propicia. Chamei o projeto de Livro , ainda que lhe ocorra encontrar-se inconcluso, seja como projeto, seja como livro. Esta é por sinal uma distinção da atividade de escrita que se realiza no digital: a impressão sobre a folha não a interrompe, ainda que ela possa chegar ao fim por outros motivos e modos. Agradou-me também pensá-lo como livro, mas sob a condição estrita de que pudesse existir também como uma caixa de fundo vazado.

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Deste modo, fechada, como não raro ocorre aos livros, não se sofreria de asfixia e o texto poderia escorregar entre o dentro e seus muitos foras. Como dizem os portugueses que conheço, a imagem calhou bem: uma caixa vazada, permeável à luz, negociando o claro e o escuro, está no fundamento da imagem que os dispositivos fotográficos, cinematográficos e videográficos capturam. Livro, a seu modo, quer ser também ele um dispositivo ou, ao menos, agenciar imagens. Esse agenciamento, contudo, não está a favor de uma narrativa e não persegue fios condutores. Encontra-se completamente enamorado dos choques que se interpõem a nossa experiência de cidade , das enervações de nosso corpo-prótese. Realiza-se, portanto, a base de relações de articulações bizarras, descargas eletrostáticas, capturas – e a golpes de imagens .

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Aquisição de conhecimento Ainda que baseado em imagens Livro não é um experimento estético. É um artefato dedicado à aquisição de conhecimento, para o que agencia palavras e imagens. Cria, por esta abordagem, intensificações, intensões, sem chegar, contudo, ao conceito. Se pensarmos em uma relação dialógica, Livro escuta, mas não fala, ou pelo menos não articula um discurso. Restitui, apenas, as intensidades que ouviu. Corresponde, sob tal aspecto, às demandas da palavra, que a partir da modernidade, se vê enredada por instâncias e estratégias inusitadas do poder: são imensas as possibilidades de especificar e guardar registros, nominar e identificar e, não raro, elas se resolvem em listas, de mortos, de extermínio. Nesse sentido preciso, a escuta é uma terapêutica, que se referindo originalmente à palavra, acolhe natureza e homens devastados.

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Como ler Livro? Livro não tem capítulos, ainda que tenha várias introduções. Está organizado sob a lógica de categorias, que põem em um mesmo lugar excertos, citações, produtos audiovisuais que podem criar sinapses ou relações significativas. A categoria, contudo, diz respeito à operação, procura um efeito audiovisual, não informando um conceito. Corresponde, sob esse aspecto, a uma perspectiva visual; ângulos, vértices e inclinações produzidos pelo olho e de suas próteses (câmeras, celulares, ipads , computadores, etc.). Categoria: letras

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Como ler Livro? Às categorias se somam elementos de registro e pesquisa, de que são exemplos os bookmarks, iconografia, além da captura (ainda não totalmente organizada) de dispositivos e softwares de interesse, para a produção deste espaço digital.

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Como se escreve Livro? A escrita que fundamenta Livro procura corresponder ao modo de vida que a modernidade fundou e que a contemporaneidade cuidou de conduzir à máxima intensidade. Não se trata, portanto, de uma escrita esculpida no silêncio e originada do uso magistral da palavra. Livro propõe uma escrita de supetões e solavancos, dos trancos que a cidade nos aplica. Língua bárbara, grunhido, afim das máquinas e de seus ruídos. Em Livro se pratica a resistência às oclusões que o mundo quer nos impor; trata-se, portanto, de escrever com a velocidade dos que estão por um triz; daqueles que se evadem do cárcere. Por isso, Livro se escreve com a velocidade das postagens por e-mail, das fotos inscritas por urls , dos bookmarks e dos vídeos embedados do youtube . O produto do agenciamento desses recursos e das palavras que se lhe associam instituem intensões, que desencaminham os sentidos. É essa a experiência que Livro quer propiciar: viver outramente o aqui e o agora.