Ricardo Zaluar - emissários, saúde e meio ambiente

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Category: Entertainment
     
 

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Era uma vez uma praia bucólica. : 

1 Era uma vez uma praia bucólica.

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2 Que continua bucólica.

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3 Mas, epa! O que é isso?

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4 “Isso”, que de vez em quando aparece aos montes, é “aquilo” mesmo. Para fins didáticos, chamemos “isso” de “m”.

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5 E esse monte de outras porcarias na praia - de onde será que elas vem?

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6 Vem do mesmo lugar que aquelas outras: da sua casa.

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7 Explicando: se você mora na Zona Sul, tudo o que você joga na privada, na pia ou no tanque sai em Ipanema.

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8 Repare no círculo vermelho. Não acredita?

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9 É um rio de m. visto do céu. São 8.000 litros por segundo. Lançados entre a praia e o recém criado Monumento Natural das Ilhas Cagarras.

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10 Imagine a cena: mais de 1.500.000 de seres humanos puxando a descarga.

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11 Uma torrente imunda que o emissário submarino de Ipanema lança no mar. Sem qualquer tratamento.

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12 Duvida? Sinta o cheiro do que jogamos no mar nos arredores das Estações Elevatórias Parafuso e André Azevedo em Copacabana.

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13 Resultado: aqui se vê incríveis fenômenos biológicos: cardumes de preservativos. manadas de absorventes íntimos. turbilhões de cotonetes. Tudo isso embebido em suco de m.

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14 E o banhista fica com o privilégio de nadar em meio a tudo isso dadas certas condições oceanográficas.

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15 Agora pense que isso vem acontecendo há 35 anos.

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16 Resultado: há uma área sem vida de 20 Km2 ao redor da boca do emissário. São 11.000 ton de porcaria assentadas no fundo que o mar não consegue processar. Fonte: Carreira, R. S. & A. L. R. Wagener, 1998. Speciation of sewage derived phosphorus in coastal sediments from Rio de Janeiro, Brazil Marine Pollution Bulletin, 36 (10): 818-827.

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17 Outro Resultado: o pescado dessa região está contaminado com Aeromonas e Plesiomonas, bactérias que causam disenteria, e a carga orgânica favorece blooms de dinoflagelados que podem causar intoxicação pela ingestão desse pescado (ciguatera). Fontes: Pereira et al., 2004. Aeromonas spp. e Plesiomonas shigelloides isoladas a partir de mexilhões (Perna perna) in natura e pré-cozidos no Rio de Janeiro, RJ. Ciênc. Tecnol. Aliment. 24(4): 562-566. Dickey, R. W. e S. M. Plakas, 2010. Ciguatera, a Public Health Perspective. Toxicon 56 (2010) 123–136.

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18 Mas então como pode ter nascido um projeto desses?

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19 O emissário de Ipanema, o primeiro do Brasil, foi projetado e construído no início dos anos 1970.

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20 Nessa época não havia Licenciamento Ambiental, EIA/RIMA, etc.

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21 Não havia a Resolução CONAMA 357 que diz que “os efluentes de qualquer fonte poluidora somente poderão ser lançados, direta ou indiretamente, nos corpos de água, após o devido tratamento (...)”

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22 Aliás, nessa época sequer havia CONAMA, ou Ministério do Meio Ambiente, ou Política Nacional de Meio Ambiente, ou Protocolo de Annápolis, ou Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, ou o próprio conceito de “Desenvolvimento Sustentável”.

Já ouviu falar nele? : 

23 Já ouviu falar nele? “O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades.” Pois é, só nasceu em 1987.

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24 Então se leis e critérios mudaram desde que fomos tricampeões, porque o projeto não foi modificado?

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25 Boa pergunta.

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26 Mas espera que vai piorar: Não bastasse o emissário de Ipanema, há os clones da Barra, e de Icaraí. Veja essa simulação de dispersão e decaimento colimétrico de seis dias. Repare como as plumas de bactérias “lambem” nossas ilhas e diversos outros balneários.

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27 Veja, por exemplo, como anda a Praia Vermelha em um domingo de sol...

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28 Agora saiba que moda que nasce em Ipanema, se espalha pelo Brasil: Hoje há dezenas de emissários sujando nosso litoral.

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29 Ah se eles soubessem como desejamos uma solução inteligente...

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30 Aliás, “a hora é essa”, diriam os oportunistas.

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31 Ou não.

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32 Pense nisso. Não dê as costas para o mar.

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33 A natureza agradece.

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34 As gerações futuras também.

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35 Créditos das imagens: Slide 1: Marc Ferrez, 1905. Slides 8 e 9: Aerolevantamento da Prefeitura do Rio, 2002. Slide 10: Região “atendida” pelo emissário sobre Google Earth. Slide 15: Aurelino Gonçalves, 1972. Slides 16 e 17: Polígono com os pontos de Carreira e Wagener (1998) sobre Google Earth. Slide 19, 20 e 22: www.rioquepassou .com.br Slide 21: ? Slide 23: Capa do “Relatório Brundtland”. ONU, 1987. Slide 26: COPPE/UFRJ: modelagem colimétrica com SIBAHIA. Slide 28: Algumas cidades que tem emissário sobre Google Earth. Slide 30: Logomarcas da Rio+20, Copa de 2014 e Olimpíada 2016. Alle anderen Fotos sind mein.