A FÁBULA DOS FEIJÕES CINZENTOS

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A FÁBULA DOS FEIJÕES CINZENTOS:

09-02-2014 1 A FÁBULA DOS FEIJÕES CINZENTOS 25 DE ABRIL, COMO QUEM CONTA UM CONTO José Vaz

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09-02-2014 2 Em tempos que já lá vão, existiu um reino chamado “Jardim-à-Beira-Mar-Plantado”. Este reino era rectangular, pequenino e muito bonito. Tão lindo, tão lindo que o mar, verde - azulado, não fazia outra coisa senão dar-lhe, dia e noite, beijinhos na cara e no pescoço.

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09-02-2014 3 Neste reino, todos se conheciam pelos seus nomes e chamavam-se: o Catarino, o Frade, o Branco, o Canário, o Moleiro, o Verde, o Manteiga, o Vermelho, o Rasteiro, o Galego, o Preto, o Rajado, e o Carrapato. Ah, é preciso não esquecer que , com os feijões, viviam as suas mulheres, as Feijocas, que eram gordinhas e muito leguminosas. 09-02-2014 3

Desde que o mundo era mundo, os feijões sempre viveram em paz e sossego uns com os outros, cada um com a sua cor, cada qual com o seu feitio. Mas, há muito, muito tempo, aconteceu uma desgraça no reino do “Jardim-à-Beira-Mar-Plantado”. :

09-02-2014 4 Desde que o mundo era mundo, os feijões sempre viveram em paz e sossego uns com os outros, cada um com a sua cor, cada qual com o seu feitio. Mas, há muito, muito tempo, aconteceu uma desgraça no reino do “Jardim-à-Beira-Mar-Plantado”. 09-02-2014 4

Tudo aconteceu porque o feijão Carrapato tomou conta do Sol, o feijão Fidalgo desviou a Água para o seu sítio e o feijão Frade tomou conta de todo o Ar que havia.:

09-02-2014 5 09-02-2014 5 Tudo aconteceu porque o feijão Carrapato tomou conta do Sol, o feijão Fidalgo desviou a Água para o seu sítio e o feijão Frade tomou conta de todo o Ar que havia.

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09-02-2014 6 Diziam os velhos livros do reino que o Sol era a liberdade de criar, a Àgua, a obrigação de distribuir o que havia e o Ar, o direito a pensar e a ter ideias diferentes. 09-02-2014 6

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09-02-2014 7 09-02-2014 7 Um dia, ao lavarem a cara nas gotas de orvalho, os feijões deram um grito de aflição: OOOOOOOhhh! Estamos sem cor, deslavados e cinzentos! Vendo-se doentes e estragados, os feijões não refilaram muito. Tristes e coitados, a maioria dos feijões viveram assim quarenta e oito anos. O tempo ia passando sem que nada se fizesse para mudar a cor do reino do “Jardim-à-Beira-Mar-Plantado”.

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09-02-2014 8 09-02-2014 8 Até que o feijão Vermelho, que lia a vida com olhos deslumbrados e para além disso era o mais refilão de todos, começou a falar baixinho aos ouvidos dos outros, no silêncio da noite: - Camaradas, não há direito que uns poucos tenham Sol, a Água e o Ar com fartura e nós, que somos a maioria, andemos secos e cheios de coisa nenhuma!

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09-02-2014 9 09-02-2014 9 O feijão Canário, que era primo do feijão Vermelho, semeou no vento canções com palavras que ninguém podia usar no reino rectangular, pequenino e muito bonito. Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Justiça, Democracia, eram as palavras que estavam aprisionadas na casa dos pensamentos.

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09-02-2014 10 09-02-2014 10 O feijão Catarino, que usava palavras com olhos abertos, ousou escrever nas folhas de couve, que eram os jornais do reino: - Ao povo do reino falta o Sol, a Água e o Ar!

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09-02-2014 11 09-02-2014 11 O feijão Galego, vendo-se aflito com a falta de ar nos bolsos no fim de cada dia escreveu, com carvão das minas, nas paredes do reino: - Socorro, que eu abafo e morro com fome e sede de tudo!

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09-02-2014 12 O feijão Moleiro, já sem forças para acarretar farinha para o seu moinho, desesperado com a sua situação, veio gritar no silêncio da aldeia: -Abaixo o Carrapato e quem o apoiar!

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09-02-2014 13 O feijão Preto, a quem tinham ocupado a terra dos seus avós, veio para os cantos e esquinas do mundo berrar: - Saiam da nossa terra!

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09-02-2014 14 09-02-2014 14 As Feijocas, gordinhas e leguminosas, que até aquele momento só tratavam de lavar as roupas e da comida dos bebés-feijões, ganharam coragem e vieram para a rua cantar em coro: -Queremos ter direitos iguais aos dos feijões!

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09-02-2014 15 O feijão Frade que tinha uma voz de flauta celestial, veio para a porta da sua oficina encantar as Feijocas e dar uma ajudinha aos feijões Fidalgo e Carrapato: - Minhas irmãs, estai quietas e caladas porque para melhor ninguém vai! Se a Providência Divina quer as coisas como estão, é porque assim é que está bem!

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09-02-2014 16 Ao ouvir isto o feijão Manteiga, que tinha espinha de caracol, falou, cheio de medo, para a mulher: - Ò mulher, é melhor a gente não se meter em encrencas. Se o feijão Frade diz, é porque é! Ele sabe muito e, depois … e depois só quero olhar pela minha vida, percebes?

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09-02-2014 17 Mas as orelhas dos habitantes deveriam estar com saudades das palavras e das ideias novas porque, quanto mais as queriam aprisionar, mais elas entravam nos ouvidos dos feijões cinzentos.

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09-02-2014 18 Quando o feijão Carrapato, o feijão Fidalgo e o feijão Frade souberam que os outros andavam a criticá-los e a exigirem mais Sol, mais Água e mais Ar, chamaram o feijão Rajado e o feijão Verde e disseram-lhes: -Precisamos de vocês, porque a pátria está em perigo! Estejam ao nosso lado e dar-vos-emos uma raio de Sol de vez em quando, uma gota de Água de quando em vez e uma golfada de Ar quando o rei fizer anos!

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09-02-2014 19 Para isso, tereis que defender a nossas costas, ouvir o que se diz a nosso respeito e vir contar-nos tudo. Quem for por nós, viverá bem. Quem for do contra, “tratamos-lhes da saúde” com porrada e tudo mais. Deram ao feijão Rajado uma farda e um pau e ao feijão Verde umas orelhas muito grandes para ouvir as falas daqueles que discordavam dos manda-chuvas do reino do “Jardim-à-Beira-Mar-Plantado”.

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09-02-2014 20 As vozes dos que discordavam começaram a engrossar e as raízes que sustentavam o feijão Carrapato, o feijão Fidalgo e o feijão Frade, aos poucos, iam ficando fraquinhas, amarelas e moles. As coisas começaram a ficar pretas para os feijões que diziam: - Eu posso, quero e mando!

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09-02-2014 21 Os três, vendo-se já muito aflitos, mandaram pôr um olho em cada esquina e um ouvido em cada parede para descobrirem os do contra.

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09-02-2014 22 Ainda não contentes com isso, o feijão Carrapato inventou um lápis com os dentes afiados e azuis para comer as palavras que ele não gostava de ouvir nem de ler. O lápis, mal foi solto no meio do reino, abocanhou logo as palavras e as ideias que moravam nos livros, nas músicas e nos jornais e levou-as amarradas de pés e mãos para a prisão das palavras luminosas. Mas não adiantava nada porque os feijões não se calavam e exigiam dar a sua opinião.

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09-02-2014 23 Ainda por cima, na terra do avô do feijão Preto, os primos deste levantaram a voz contra os que mandavam no reino do “Jardm-à-Beira-Mar-Plantado” e berraram, muito zangados: Ide-vos embora, queremos ser nós a mandar na nossa terra!

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09-02-2014 24 O feijão Carrapato não gostou nada disso e mandou para as terras de além do mar, muitos feijões Brancos e Rajados para combater os primos do feijões Pretos. Foi durante essa triste guerra que alguns feijões Rajados descobriram que as coisas não estavam certas e decidiram deixar de trabalhar para os ladrões do Sol, da Água e do Ar.

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09-02-2014 25 O feijões reuniram-se nas noites sem lua e, como as raízes que prendiam ao chão o feijão Carrapato, o feijão Frade e o feijão Fidalgo estavam cada vez mais podres, deram-lhes um empurrão tão grande, que eles caíram por terra e nunca mais se levantaram. Ninguém mais roubou o Sol e o Ar aos outros, e a Àgua começou a ser repartida por todos. Quando isso aconteceu, os feijões cinzentos voltaram a ter as cores antigas e no reino vegetal foi Primavera. Os cravos vieram morar para as ruas e para as praças e, no calendário dos Homens Portugueses, a História pôs uma rodinha onde marcava 25 de ABRIL DE 1974- DIA DA LIBERDADE!

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