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AUTO DA BARCA DO INFERNO : 

AUTO DA BARCA DO INFERNO GIL VICENTE ano lectivo 2008-2009 língua portuguesa, 9ºano prof. antónio alves

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Para se compreender o “Auto da Barca do Inferno” deve-se ter presente que esta obra foi escrita num período da história que corresponde à transição da Idade média para a Idade Moderna.  O seu autor, Gil Vicente, enquadra-se justamente nesse momento de transição, ou seja, está ligado tanto ao medievalismo quanto ao humanismo. Esse conflito faz com que Gil Vicente pense em Deus e ao mesmo tempo exalte o homem livre.

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O reflexo desse conflito interior é visto claramente na sua obra, pois ao mesmo tempo que critica, de forma impiedosa, toda a sociedade de seu tempo, adoptando assim uma postura moderna, tem ainda o pensamento voltado para Deus, característica típica do mundo medieval.

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O “Auto da Barca do Inferno”foi apresentado pela primeira vez em 1517, à rainha D. Maria de Castela Este Auto, classificado pelo próprio  autor como um “auto de moralidade”,  tem como cenário um porto imaginário,  onde estão ancoradas duas barcas:  uma como destino o paraíso, tem como  comandante um anjo; a outra, com  destino ao inferno, tem como  comandante o diabo, que traz consigo  um companheiro.

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Todas as almas, assim que se desprendem dos corpos, são obrigadas a passar por esse lugar para serem julgadas. Dependendo dos actos cometidos em vida, são condenadas à Barca da Gloria ou à do Inferno.          Quanto ao estilo, pode-se dizer que todo o Auto é escrito em tom coloquial, ou seja, a linguagem aproxima-se a da fala, revelando assim a condição social das personagens, e todos o versos são Redondilhas maiores, ou seja, versos com sete sílabas métricas.

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As rimas obedecem, geralmente, ao esquema   A,B,B,A,A,C,C,A como se pode ver na fala do onzeneiro:      “Olá, ó demo barqueiro! (A)     Sabeis vós no que me fundo (B)     Quero lá tornar ao mundo (B)     E trarei o meu dinheiro (A)     Aqueloutro marinheiro (A)     Porque me vê vir sem nada (C)     Dá-me tanta borregada (C)     Como arrais lá do barreiro (A)”

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Em relação a estrutura externa pode-se dizer que o  Auto possui um único acto, dividido em cenas, nas quais predominam os diálogos entre as almas que  estão sendo julgadas com o Anjo e com o Diabo. Os personagens do Auto, com exceção do Anjo de  do Diabo, são representantes típicos da sociedade  da época (personagens-tipo). Raramente aparecem identificados pelo nome, pois são designados pela ocupação social que exercem.  Como exemplo pode-se cita  o onzeneiro, o fidalgo, sapateiro etc.

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No começo do Auto, o Anjo divide o palco com o Diabo e o seu companheiro. Os dois últimos estão muito eufóricos, enquanto realizam os preparativos da sua barca, pois sabem que ela partirá repleta de almas.  As posturas assumidas pelo Anjo e pelo Diabo acentuam ainda mais a tradicional oposição entre Bem e Mal. As poucas falas fazem do Anjo uma figura quase estática e se contrapõe à alegria e ironia do Diabo.

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A primeira alma a chegar para o julgamento é o Fidalgo. Traz um manto (símbolo da vaidade) e vem acompanhado por um pajem (símbolo da tirania) que carrega uma cadeira (símbolo do seu estatuto social). Esse representante da nobreza é condenado à barca do inferno por ter levado uma vida tirana cheia de luxúria e pecados.

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O segundo personagem que sofre julgamento é o onzeneiro ambicioso. Ao chegar à barca do inferno o Diabo o chama-lhe “meu parente”.  Ao descobrir o destino do batel infernal, ele recusa-se a embarcar e vai até a barca da gloria, mas o Anjo acusa-o de onzena (agiotagem) e não permite a sua entrada. Condenado pela ganância, usura e avareza, retorna à barca do inferno e tenta convencer o Diabo a deixá-lo voltar ao mundo dos vivos para buscar o dinheiro que acumulou durante a sua vida.  Mas o diabo não cede aos seus argumentos e ele acaba embarcando no batel infernal.

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A próxima alma a chegar é o Parvo. Desprovido de tudo, ele é recebido pelo Diabo, que tenta convencê-lo a entrar em sua barca. Ao descobrir o destino do batel infernal, o parvo insulta o Diabo e vai até a o batel da glória. Lá chegando, o parvo diz não ser ninguém e, por causa da sua humildade e modéstia, a sua sentença é a glorificação.

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O outro personagem que entra em cena é o Sapateiro, que traz consigo todas as ferramentas necessárias para a execução do seu trabalho (formas e avental).    Ao saber o destino da barca do inferno, ele recorre ao Anjo, mas a sua tentativa é vã e ele é condenado por roubar o povo com seu ofício durante 30 anos e pela sua falsidade religiosa.

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Acompanhado pela amante, o próximo personagem a entrar em cena é o Frade. Alegre, cantante e bom dançarino, o frade veste-se com as tradicionais roupas sacerdotais e sob elas, instrumentos e roupas usadas pelos praticantes da esgrima, de que ele se revela muito hábil. O Frade indigna-se quando o Diabo o convida a entrar em sua embarcação, pois acredita que seus pecados deveriam ser perdoados, uma vez que ele é um representante da Igreja.   Sempre acompanhado da amante, segue até  o batel da glória. onde o Anjo nem sequer lhe dirige a palavra, cabendo ao Parvo a tarefa de condenar o frade à barca do inferno por seu falso moralismo religioso.

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Depois do Frade, entra em cena Brísida Vaz, uma mistura de feiticeira com alcoviteira. Ao ser recebida pelo Diabo ela declara possuir muitas jóias e três arcas cheias de materiais usados em feitiçaria. Mas seu maior bem são “seiscentos virgos postiços”. Como a palavra “virgo” corresponde ao hímen, pode-se dizer que a alcoviteira Brísida Vaz prostituiu 600 meninas virgens. No entanto, o adjetivo postiço dá margem a interpretação de que as moças não eram virgens e Brísida Vaz enganou seiscentos homens.

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Ao saber qual era o destino do batel infernal, ela vai até à barca do Anjo e, com um discurso semelhante ao usado nas artes da sedução, tenta convencer o anjo a deixá-la embarcar. Mas essa tentativa é inútil, pois ela é condenada à barca do inferno pela prática de feitiçaria, prostituição e por alcovitagem.

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O próximo personagem que entra cena é o Judeu, acompanhado de seu bode, símbolo do judaísmo. Ele dirige-se ao batel infernal é até mesmo o Diabo, que sempre mostrou-se muito desejo por almas, se recusa a levá-lo. O Judeu tenta subornar o Diabo, mas esse, sob pretexto de não levar bode em sua barca, aconselha-o a procurar a “outra” barca. O judeu então tenta aproximar-se do Anjo, mas o Parvo acusa-o de ter desrespeitado o Cristianismo.  O Diabo acaba por levar o Judeu e o bode rebocados na sua barca, pois é «mui ruim pessoa»

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Depois do Judeu, entra em cena o Corregedor. Traz consigo vários autos (processos) e pode ser comparado aos juizes actuais. Ao ser convidado a embarcar no batel infernal ele começa a argumentar em sua defesa.  No meio da conversação, chega o Procurador, trazendo consigo vários livros. Ao ser convidado a embarcar, ele também se recusa e os dois representantes do judiciário conversam sobre os crimes que cometeram juntos e seguem para a barca da glória.  Ao chegarem, o Anjo, ajudado pelo Parvo, não permite que eles embarquem, condenando-os ao batel infernal por usarem o poder do judiciário em benefício próprio.

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O próximo personagem a entrar em cena é o Enforcado, que ainda traz no pescoço a corda usada no seu enforcamento.    Ele acredita que a morte na forca o redime dos seus pecados, mas isso não ocorre e ele é condenado.

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Os últimos personagens a entrar  em cena são os quatro Cavaleiros que morreram nas cruzadas em defesa do Cristianismo.  Eles passam, cantando, pelo batel infernal, o Diabo convida-os a entrar, mas eles seguem em direcção ao batel da glorificação, onde são recebidos pelo Anjo.   O facto de morrer a lutar pelo Cristianismo garante a esses personagens uma espécie de passaporte para a salvação.