logging in or signing up Manhas e Patranhas, Ovos e Castanhas Alice Vieira analuisabeirao Download Post to : URL : Related Presentations : Share Add to Flag Embed Email Send to Blogs and Networks Add to Channel Uploaded from authorPOINT lite Insert YouTube videos in PowerPont slides with aS Desktop Copy embed code: (To copy code, click on the text box) Embed: URL: Thumbnail: WordPress Embed Customize Embed The presentation is successfully added In Your Favorites. Views: 181 Category: Entertainment License: All Rights Reserved Like it (1) Dislike it (0) Added: November 06, 2011 This Presentation is Public Favorites: 0 Presentation Description No description available. Comments Posting comment... Premium member Presentation Transcript Slide 2: ALICE VIEIRA E scritora e jornalista Nasceu em Lisboa, 20 de Março de 1943Slide 3: É uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens. Várias das suas obras foram editadas no estrangeiro.Slide 10: Manhas e Patranhas , Ovos e CastanhasSlide 11: Era uma vez um rapaz a quem o pai mandara fazer um recado. Ou porque o recado fosse difícil, ou porque o rapaz não o tivesse entendido, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que o rapaz se perdeu, e andou horas e horas sem atinar com o caminho de regresso a casa.Slide 12: Mas já era muito tarde, a estalagem estava cheia, e de comer pouco havia. Mas a estalajadeira teve pena do rapaz e disse-lhe: -Senta-te aí, que alguma coisa se há-de arranjar. -Foi à cozinha e de lá voltou com dois ovos na mão. -Dois ovos cozidos – disse. –Foi tudo o que sobrou do jantar. Aí os tens. Podes comê-los e que te façam muito bom proveito. O rapaz agradeceu, comeu os ovos, e logo adormeceu. No dia seguinte, depois de a estalajadeira lhe ter ensinado o caminho de regresso, o rapaz mostrou-lhe os bolsos vazios, mas prometeu que, assim que pudesse, voltaria à estalagem para pagar a divida . Cheio de fome, foi bater à porta de uma estalagem e pediu comida.Slide 13: Mas, ou porque o pai nunca mais o tivesse mandado fazer recados, ou porque os recados eram sempre noutro lugar, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que os anos correram e o rapaz nunca mais passou pelo caminho que levava à estalagem. E nunca mais pagava a dívida. Um dia, já homem feito e pai de filhos, aconteceu ter negócios por aqueles sítios, e lembrou-se de ir pagar à estalajadeira os ovos cozidos que em tempos ali comera. -Julgava que te tinhas esquecido de mim… disse a estalajadeira, assim que o reconheceu. --Não esqueci. Por isso aqui estou hoje, para te pagar. Ia o homem tirar as moedas do bolso, quando a estalajadeira lhe diz: - Espera, que as contas ainda não estão feitas. Deixa-me ir lá dentro buscar papel e lápis, para que não haja engano. Admirou-se o homem, pois bem fácil lhe parecia a conta: Uma moeda por cada ovo cozido, duas moedas seriam, e boa paga já era. Do fundo da cozinha, um velho assistia à cena, sem dizer nada. - Para que quererá ela papel e lápis? – murmurou o homem. O velho sorriu, e não disse nadaSlide 14: Algum tempo depois, sentava-se a estalajadeira diante do homem , lápis na mão, papel sobre a mesa, e ali começou uma cantilena que parecia não acabar mais: -Dois ovos, que davam galinhas, que davam ovos, que davam galinhas, que davam ovos, que davam… -Para, senhora! Pare, ou ainda ficamos ambos doidos!-gritou o homem. Que contas está a senhora a fazer? Deu-me dois ovos cozidos, dois ovos cozidos lhe pagarei. Qual a dificuldade? A estalajadeira deu uma grande gargalhada: -Isso não é assim como o senhor pensa! Ponha-se o senhor na minha posição: desses dois ovos cozidos iriam sair pintos, que se transformariam em galinhas, que por sua vez dariam em galinhas, que dariam ovos, que dariam pintos, que dariam galinhas… E o senhor só me quer dar duas moedas por tudo isto? Ficou o homem muito espantado, e sem saber o que dizer, quando o velho, lá do fundo da cozinha, murmurou: -Leve-se o caso a tribunal. -Não tenho dinheiro para pagar a quem me defenda – disse o homem -Defendo-o eu. E de graça – disse o velho. E ali mesmo se marcou o dia e a hora do julgamentoSlide 15: No dia e hora aprazados lá se encontraram a estalajadeira e o homem na sala do tribunal. Só o velho tardava. -Eu devia ter desconfiado… - lastimava-se o homem. – Por que razão um desconhecido haveria de querer defender-me? E sem ganhar nada? -Bem feito – dizia a estalajadeira. – Eu quero aquilo a que tenho direito, e depressa, que a estalagem está cheia e não posso perder tempo. -Vamos então a isso – disse o juiz. – Eu também não tenho o dia todo. -Esperem mais uns minutos… - pediu o homem. -Já esperámos de mais – disse a estalajadeira.Slide 16: Mas, ou porque estivesse do lado de lá da porta a ouvir a conversa, ou porque tinha efectivamente chegado nessa altura, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que, no exacto momento em que o juiz ia dizer «levante-se o réu», as portas do tribunal abriram-se e o velho entrou. -Mas em que estado o senhor se encontra! – exclamou a estalajadeira, olhando para ele: -Que lhe aconteceu? –perguntou o homem. De facto, o velho estava irreconhecível, sujo da cabeça aos pés, chamuscado nas barbas e no cabelo, como se tivesse tombado numa fogueira e dela a custo tivesse saído -Desculpem – disse ele - , mas estive até agora a assar castanhas, para daqui a bocado as ir semear no quintal. A estalajadeira e o juiz deram uma grande gargalhada. -Vais semear castanhas assadas? – perguntou ela, o corpo a sacudir de tanto riso. -Claro – respondeu o velho. –E daqui a uns tempos, destas castanhas assadas que semeei, nascerão belos castanheiros! -O juiz decidiu então pôr cobro àquele desvario: -Bom homem, peço-lhe que tenha um pouco mais de juízo. Onde é que já se viu nascerem castanheiros de castanhas assadas? -Claro – disse a estalajadeira - , isso é uma tolice que só serve para me fazer perder tempo. Se as castanhas estão assadas, delas nunca poderão sair castanheiros!Slide 17: Foi a vez de o velho começar a rir: -Então se, como dizes, castanhas assadas não dão castanheiros, podes explicar-me como é que ovos cozidos dão galinhas? Ficou a mulher sem palavras, e logo ali o juiz lhe disse que fosse à vida, que nunca mais quisesse enganar os outros – e, sobretudo, que não lhe fizesse perder tempo a ele, que era homem de muitos afazeres. Correu a estalajadeira para casa sem olhar para trás, o rosto corado da pressa e da vergonha. E, ou porque (como alguns garantiram depois) se trataria de um anjo disfarçado, ou porque simplesmente se tratava de alguém que apenas queria prestar um serviço sem obter recompensa, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que o velho desapareceu sem deixar rasto. Regressou o homem a casa - não sem antes passar pela estalagem, e mandar entregar à estalajadeira as duas moedas que lhe devia. Sempre se gabara de ser homem de boas contas. 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Várias das suas obras foram editadas no estrangeiro.Slide 10: Manhas e Patranhas , Ovos e CastanhasSlide 11: Era uma vez um rapaz a quem o pai mandara fazer um recado. Ou porque o recado fosse difícil, ou porque o rapaz não o tivesse entendido, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que o rapaz se perdeu, e andou horas e horas sem atinar com o caminho de regresso a casa.Slide 12: Mas já era muito tarde, a estalagem estava cheia, e de comer pouco havia. Mas a estalajadeira teve pena do rapaz e disse-lhe: -Senta-te aí, que alguma coisa se há-de arranjar. -Foi à cozinha e de lá voltou com dois ovos na mão. -Dois ovos cozidos – disse. –Foi tudo o que sobrou do jantar. Aí os tens. Podes comê-los e que te façam muito bom proveito. O rapaz agradeceu, comeu os ovos, e logo adormeceu. No dia seguinte, depois de a estalajadeira lhe ter ensinado o caminho de regresso, o rapaz mostrou-lhe os bolsos vazios, mas prometeu que, assim que pudesse, voltaria à estalagem para pagar a divida . Cheio de fome, foi bater à porta de uma estalagem e pediu comida.Slide 13: Mas, ou porque o pai nunca mais o tivesse mandado fazer recados, ou porque os recados eram sempre noutro lugar, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que os anos correram e o rapaz nunca mais passou pelo caminho que levava à estalagem. E nunca mais pagava a dívida. Um dia, já homem feito e pai de filhos, aconteceu ter negócios por aqueles sítios, e lembrou-se de ir pagar à estalajadeira os ovos cozidos que em tempos ali comera. -Julgava que te tinhas esquecido de mim… disse a estalajadeira, assim que o reconheceu. --Não esqueci. Por isso aqui estou hoje, para te pagar. Ia o homem tirar as moedas do bolso, quando a estalajadeira lhe diz: - Espera, que as contas ainda não estão feitas. Deixa-me ir lá dentro buscar papel e lápis, para que não haja engano. Admirou-se o homem, pois bem fácil lhe parecia a conta: Uma moeda por cada ovo cozido, duas moedas seriam, e boa paga já era. Do fundo da cozinha, um velho assistia à cena, sem dizer nada. - Para que quererá ela papel e lápis? – murmurou o homem. O velho sorriu, e não disse nadaSlide 14: Algum tempo depois, sentava-se a estalajadeira diante do homem , lápis na mão, papel sobre a mesa, e ali começou uma cantilena que parecia não acabar mais: -Dois ovos, que davam galinhas, que davam ovos, que davam galinhas, que davam ovos, que davam… -Para, senhora! Pare, ou ainda ficamos ambos doidos!-gritou o homem. Que contas está a senhora a fazer? Deu-me dois ovos cozidos, dois ovos cozidos lhe pagarei. Qual a dificuldade? A estalajadeira deu uma grande gargalhada: -Isso não é assim como o senhor pensa! Ponha-se o senhor na minha posição: desses dois ovos cozidos iriam sair pintos, que se transformariam em galinhas, que por sua vez dariam em galinhas, que dariam ovos, que dariam pintos, que dariam galinhas… E o senhor só me quer dar duas moedas por tudo isto? Ficou o homem muito espantado, e sem saber o que dizer, quando o velho, lá do fundo da cozinha, murmurou: -Leve-se o caso a tribunal. -Não tenho dinheiro para pagar a quem me defenda – disse o homem -Defendo-o eu. E de graça – disse o velho. E ali mesmo se marcou o dia e a hora do julgamentoSlide 15: No dia e hora aprazados lá se encontraram a estalajadeira e o homem na sala do tribunal. Só o velho tardava. -Eu devia ter desconfiado… - lastimava-se o homem. – Por que razão um desconhecido haveria de querer defender-me? E sem ganhar nada? -Bem feito – dizia a estalajadeira. – Eu quero aquilo a que tenho direito, e depressa, que a estalagem está cheia e não posso perder tempo. -Vamos então a isso – disse o juiz. – Eu também não tenho o dia todo. -Esperem mais uns minutos… - pediu o homem. -Já esperámos de mais – disse a estalajadeira.Slide 16: Mas, ou porque estivesse do lado de lá da porta a ouvir a conversa, ou porque tinha efectivamente chegado nessa altura, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que, no exacto momento em que o juiz ia dizer «levante-se o réu», as portas do tribunal abriram-se e o velho entrou. -Mas em que estado o senhor se encontra! – exclamou a estalajadeira, olhando para ele: -Que lhe aconteceu? –perguntou o homem. De facto, o velho estava irreconhecível, sujo da cabeça aos pés, chamuscado nas barbas e no cabelo, como se tivesse tombado numa fogueira e dela a custo tivesse saído -Desculpem – disse ele - , mas estive até agora a assar castanhas, para daqui a bocado as ir semear no quintal. A estalajadeira e o juiz deram uma grande gargalhada. -Vais semear castanhas assadas? – perguntou ela, o corpo a sacudir de tanto riso. -Claro – respondeu o velho. –E daqui a uns tempos, destas castanhas assadas que semeei, nascerão belos castanheiros! -O juiz decidiu então pôr cobro àquele desvario: -Bom homem, peço-lhe que tenha um pouco mais de juízo. Onde é que já se viu nascerem castanheiros de castanhas assadas? -Claro – disse a estalajadeira - , isso é uma tolice que só serve para me fazer perder tempo. Se as castanhas estão assadas, delas nunca poderão sair castanheiros!Slide 17: Foi a vez de o velho começar a rir: -Então se, como dizes, castanhas assadas não dão castanheiros, podes explicar-me como é que ovos cozidos dão galinhas? Ficou a mulher sem palavras, e logo ali o juiz lhe disse que fosse à vida, que nunca mais quisesse enganar os outros – e, sobretudo, que não lhe fizesse perder tempo a ele, que era homem de muitos afazeres. Correu a estalajadeira para casa sem olhar para trás, o rosto corado da pressa e da vergonha. E, ou porque (como alguns garantiram depois) se trataria de um anjo disfarçado, ou porque simplesmente se tratava de alguém que apenas queria prestar um serviço sem obter recompensa, ou por qualquer outra razão de que agora não me lembro, o certo é que o velho desapareceu sem deixar rasto. Regressou o homem a casa - não sem antes passar pela estalagem, e mandar entregar à estalajadeira as duas moedas que lhe devia. Sempre se gabara de ser homem de boas contas.