O senhor que vivia na lua

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Conto duma obra de Vera Roquette

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Presentation Transcript

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Era um senhor tão distraído, tão distraído que passava o tempo todo na lua. Aquilo não era doença. Era mesmo distracção. A pobre da mulher do senhor Distraído – vamos dar-lhe esse nome para encurtar – já não sabia o que fazer. Passava o santo dia a chamar-lhe a atenção para tudo e mais alguma coisa. E a apontar-lhe as coisas em montes de blocos de notas para ele não se esquecer. A sua distracção era tanta que, quando começou a namorar, em vez de oferecer à rapariga um belo ramo de flores, ofereceu-lhe um colorido espanador. A namorada do senhor Distraído ficou muito admirada; mas com o andar do tempo acabou por se conformar. No dia do casamento, o senhor Distraído estava mais distraído do que nunca (devia ser do nervoso) e ficou pacatamente em casa a comer pipocas, a tratar do periquito e a ver televisão. Só quando recebeu várias chamadas – do padre, do padrinho, do amigo, do sacristão, e depois da noiva – é que se lhe fez luz.

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Desatou então a correr para a igreja com o comando da televisão na mão, pensando ser o telemóvel; e subiu ao altar com a gaiola e o periquito debaixo do braço, de pijama e com um sapato de cada cor. Quando o padre lhe pediu as alianças, ele perguntou: Quanto custam? Aquilo não era falta de amor. Era mesmo distracção. O senhor Distraído era tão distraído, tão distraído, tão distraído que quando chegava a casa enganava-se sempre na porta; e entrava na porta ao lado, que era a casa da porteira. Todos os dias, de manhã, o senhor Distraído pedia à mulher que lhe fizesse um belo sumo de laranja. Mas esquecia-se invariavelmente de o beber. A mulher ficava exasperada. Um dia, o senhor Distraído chegou ao emprego e lembrou-se (coisa rara!) de que não tinha tomado o sumo de laranja. Ficou muito irritado e disse para consigo: “Apre, isto é demais!, lá me esqueci de beber o sumo de laranja outra vez.” E decidiu voltar a casa.

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Chamou a empregada e pediu: Trigénia, traga-me, por favor, o sumo de laranja. Hoje… não falho! A empregada ficou muito atrapalhada e exclamou: - Mas hoje o senhor bebeu o sumo! Aliás, foi o único sumo que bebeu desde o dia em que entrei nesta casa. Certa vez, o senhor Distraído, que adorava banhos de espuma, pôs a água a correr e foi dar várias voltas ao jardim. Quando chegou a casa, a espuma saía pelas janelas, havia água por todo o lado… e os vizinhos andavam de barco.

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O senhor Distraído andava sempre à procura dos óculos, que estavam na ponta do nariz. Punha-e a perguntar a toda a gente: Onde estão os meus óculos, que não vejo nada?! E só quando lhe tiravam os óculos da ponta do nariz é que ele acreditava, pois ficava a ver tudo desfocado e numa grande névoa. O senhor Distraído nunca sabia onde punha o carro. Andava horas e horas de um lado para o outro na rua à procura dele. E punha-se a berrar: Fui roubado! Fui roubado! Depois aparecia a polícia, que já sabia da sua distracção, e dizia-lhe: Ó amigo, você não foi roubado, você trocou mas foi de carro, e não se lembra! Nessa altura, o senhor Distraído ficava descansado. Um dia o senhor Distraído teve de ir ao médico. Mas quando lá chegou já não se lembrava nada do que lhe doía. O médico perguntou-lhe: Então o que é que sente?... O que lhe dói? O senhor Distraído respondeu de olhar vago: O senhor doutor como vai… Sente-se bem?... E acabou por sair dali sem se queixar de nada e com o estetoscópio do médico pendurado ao pescoço.

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Ao volante, o senhor Distraído era um perigo. Ia sempre tão distraído, tão distraído, a sonhar, ou a olhar para tudo quanto era sítio, que a mulher estava constantemente a apanhar sustos. Fazia tangentes aos passeios, andava aos ziguezagues e, um dia, até conseguiu a proeza de atropelar o dedo mindinho do pé a um transeunte que ia a atravessar a rua. A pessoa ficou furiosa e pôs-se a gesticular. Mas o senhor Distraído achou que o estavam a cumprimentar, sorriu e começou a dizer adeus.

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Quando ia ao restaurante, o senhor Distraído, em vez de ficar na sala, ia sempre direito à cozinha; e punha-se com uma colher de pau a mexer nas panelas, calçava as luvas para lavar a loiça, julgando estar em casa, e esquecia-se de que ia almoçar. Depois vinha-se embora, a dizer que se sentia zonzo e com tonturas. E marcava nova consulta para ir ao médico. Os amigos, que já sabiam que ele era muito distraído, davam-lhe logo um belo bife com batatas fritas. E o senhor Distraído arrebitava.

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Entretanto a mulher do senhor Distraído, depois de dez anos de namoro, e de mais dez de casamento, viu que eram anos a mais, que já estava farta de tanta distracção e de gastar tantos blocos de notas, e mandou-o passear de vez. O senhor Distraído foi então jogar na lotaria (dizem que azar aos amores é sorte ao jogo!), mas esqueceu-se do bilhete em cima do balcão. Ou melhor, esqueceu-se de que tinha jogado! No dia em que andava a sorte, o senhor Distraído resolveu ir viajar. Entretanto conheceu uma senhora que também era muito distraída e que andava sempre à procura dos óculos, que estavam postos na testa. E lá partiram os dois para muito longe, e nunca mais se soube nada deles. Nem eles próprios.

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A esta hora, devem andar perdidos pelo mundo, esquecidos, mas muito felizes. Mais feliz ficou o empregado do balcão, que nunca mais pôs a vista em cima do senhor Distraído; e que ao ver o bilhete da lotaria percebeu que estava milionário. Começou então aos pinotes, a gesticular de braços no ar, e a berrar muito alto: - Estou rico! Estou rico!... Muito, muito rico!... E não sou nada distraído!

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Este excerto da obra de Vera Roquette foi trabalhado com os alunos do 3º e 4º anos de escolaridade, na BE/CRE O Sabichão, na EB1 do Prior Velho, para a Feira do Livro 2010, pelo professor bibliotecário Paulo Gomes. Cota: 82-93-34 ROQ