Slide 1:A Revolução das Letras Vergílio Alberto Vieira de
Slide 2:Quem primeiro deu o alerta no Quartel das Letras foi o Cabo Clarim que, farto de tocar a recolher, ou porque não, ou porque sim, anunciou de pronto a hora do motim.
Slide 3:Acenderam-se então os holofotes na parada, saíram as letras a correr da camarata e, quando o Comandante-General se levantou, estremunhado, e veio à janela a toda a pressa, à pressa pediu contas a cada sentinela. “Mas que pouca-vergonha é esta?”, desaprovou, o boca aberta, a língua em tropel: “Que parece que a tropa virou festa no quartel!”
Slide 4:Não se enganava o Comandante, ao megafone, pois já por toda a parte se ouviam toques de caixa, gaitas e trombone. Se alguém o disse, assim o fez. As letras queriam viver em liberdade, e sem birra, nem desfeita, tinha chegado, desta feita, a ocasião de irem dizê-lo à cidade, por que não?, nem que tivessem de marchar, por terra e mar, contra a nação.
Como o que tem de ser tem muita força, e não cumprir um dever, diz o poeta, é o que há na vida de melhor, logo as letras se fardaram, a rigor, e vai de abrir caminho, numa boa, de Santarém até Lisboa, pondo de aviso Portugal de que , se não mudasse a bem, mudava a mal!
Slide 5:Mas por que havia de se opor, o povo português, a quem tão bem lhe queria? Como em 1385 e em 1640, a revolta era, de resto, para levar à letra.
Heróis do mar não são heróis da treta.
E já que a pátria, em guerra, assim sofria, cada letra decidiu fazer de Abril um grande dia nos quartéis, derrubar o vinte e quatro/a vinte e cinco, com afinco, e fazer de Portugal, outro país a vinte e seis.
Slide 6:No Quartel das Letras, o Comandante-General é que nem queria acreditar.
Não vai que as letras, alinhadas em coluna, sem demora se dirigiram à capital, estrada fora?
E como ninguém ousou fazer-lhes frente, não tardaram a chegar às portas de Lisboa, cada um por sua vez, pelotões de letras, armados de G-3, e a jurar fidelidade a um jovem Capitão, que os comandava a bem da democracia da nação.
Slide 7:Já do alto do Castelo de São Jorge o sol dardejava o Terreiro do Paço e o Tejo & tudo amanheciam, quando as letras, ao romper do dia, ignorando o que podia acontecer, foram informadas que os Ditadores tinham fugido a correr, de rabo entre as pernas, rumo à fronteira e pró Brasil, apercebendo-se que morreriam nesse Abril, caso insistissem em ficar nos cadeirões de São Bento e de Belém, pudessem lá saber, por ordem de quem.
Slide 8:Foi então que as letras, uma a uma, combinaram avançar pró Largo do Carmo em carros de combate, ainda que isso lhes parecesse um disparate.
Só que Lisboa, nessa noite, não estava para dormir. Chamou o povo à rua, fez história, ergueu a voz, e cantou vitória, em forma de canção. Em nome da liberdade,
Foi-se o regime à viola.
Longe de ti, ó cidade,
Deram os tiranos à sola.
Slide 9:Ai deles que não dessem!
Pois mal do Quartel da Guarda veio sinal de rendição, logo as letras, de cravo vermelho na espingarda, se juntaram para decretar a Revolução.
Era o fim da Censura, da mão pesada e dura dos Coronéis, que, daí então, de bico calado e aos papéis, teriam que dar volta ao quarteirão.
E a partir de agora?
Slide 10:Rádios, jornais, televisão podiam já noticiar em liberdade que a Revolução iria ser coisa nunca vista, apesar do povo em festa nem sequer pensar no que iria mudar com a conquista. Cada letra era um soldado, trajado à maneira, e as multidões, do Rossio ao Camões, celebravam o fim da pasmaceira nacional, dando vivas de novo a Portugal.
Onde quer que chegassem, com beijos e abraços recebidas, as letras não podiam ser esquecidas, devendo-lhes, de ora em diante, cada cidadão o direito de ser filho da nação.
Slide 11:Como, além de mandar de guias a velha Ditadura, tinham as letras por missão criar ideias, logo que abriram as portas aos presos políticos nas cadeias, todo o alfabeto passou dos discursos à acção, prometendo Trabalho, Segurança, Habitação.
Slide 12:Isto, porém, não era tudo, lá isso não, pois em Saúde, Cultura, Educação, de nada valeria meter na linha a Reacção. Não perderam tempo, os maganões, que, pelo cheiro, puseram ao fresco o seu dinheiro; quais ricos pobretões a passear como gente bem pelos salões.
Slide 13:Vai daí, antes não fosse, como no conto do vigário, que à primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer.
Entre político & militar não há que meter colher.
Pois que revolução, para inglês ver, em português – lá se foi, era uma vez…
Slide 14:Este texto foi retirado da obra “A Revolução das Letras”, de Vergílio Alberto Vieira e ilustrado por Fedra Santos.
Com adaptação gráfica efectuada pelo professor Paulo Gomes para as comemorações do Dia da Liberdade na Escola da Portela. Cota - 94(469)”1974” VIE
Slide 15:Outras obras sob o tema “25 de Abril de 1974” que podes ler:
- O 25 de Abril contado ás crianças e aos outros de José Jorge Letria;
- L.A: e Cª no meio da revolução de Maria Mata;
- O tesouro de Manuel António Pina;
- Vinte e zinco de Mia Couto;
- Vinte e cinco a sete vozes de Alice Vieira;
- Romance do 25 de Abril de José Pedro Mésseder;
- 25 de Abril de Ana Mª Magalhães e Isabel Alçada;
- Abril 30 anos 30 poemas, Organizado por José Fanha e José Jorge Letria;
- Salgueiro Maia – o homem do tanque da liberdade de José Jorge Letria;
- Liberdade o que é? de José Jorge Letria;
- História de uma flor de Matilde rosa Araújo;
- A liberdade explicada às crianças de Jean-Luc Moreau;e
- 25 de Abril – Revolução dos cravos de Paula Cardoso Almeida. Viva a Revolução! Viva a Liberdade! Abril de 2009